quinta-feira, 14 de abril de 2011

esta é comprida...

AMOR E DOR

Não é de agora. Já de algum tempo. Ninguém fica mais jovem ao envelhecer. Óbvio. Mais fraco, sim. De corpo. De alma.

Quando me passaram o serviço não vi, não pressenti problemas. O alvo era conhecido. Tudo bem, não seria a primeira vez. Ou seria. O alvo era o Alves.

Não tenho amigos. Tivesse-os, o melhor bem poderia ser o Alves.

Não era. Estivemos juntos muitas vezes, fizemos várias viagens a serviço. Mais de uma vez, a vida de um dependeu da ação correta do outro.

Eu conhecia seus hábitos. Não foi difícil encontrá-lo.

Ele se hospedara num hotel do centro. Parecia bêbado. Parecia lúcido.

Seria muito tolo de minha parte crer que o pegaria de surpresa. Ele já me esperava. Se não a mim, a um outro qualquer.

Vá lá que o fato de ser eu possa tê-lo surpreendido. Provável, porém nada que chegasse, ao menos, a acelerar um pouco o coração.

Quando ele entrou no quarto, eu já estava lá dentro, sentado na única poltrona.

Sem cumprimentos. Ele só se largou na cama e se deixou ficar, olhando para o teto.

— Me desculpe, estou muito bêbado e muito cansado. Vou dormir.

— Você sabe por que estou aqui?

Pergunta imbecil.

— Sei. E você, sabe por que está aqui?

— Fui contratado.

        De olhos fechados, ele deu uma risadinha que morreu num sorriso.

Fez-se silêncio. Ele, de olhos fechados, ainda sorrindo, emitiu um ronco. Dormia. Eu, de pé diante da cama, o .38 com silenciador na mão inerte.

Não sei se sua cara era triste. Parecia cansado, bem cansado, e suas feições, velhas, bem mais velhas que sua idade.

Por que eu estava lá? Normalmente não nos diziam por que devíamos fazer um trabalho. Só nos indicavam o alvo e nos davam um prazo. Pagavam bem.

O Alves começara a falhar. Eu sabia. Eis o porquê de minha visita. Velhice, fraqueza, cansaço. Ele deixara escapar seu último alvo. Os rastos desse fracasso poderiam levar a muitos, produzir muitas prisões, revelar máculas de muitas reputações ilibadas.

Ao sair do quarto do Alves, não fui para casa. Não achei prudente. Procurei um hotel de luxo num bairro nobre e telefonei para Alícia. Pedi-lhe que passasse na minha casa e me trouxesse algumas poucas coisas que necessitaria para ficar fora por um tempo. Ou para sempre.

Havia muito que eu deixara de chamar outras mulheres. Só me sentia bem com Alícia. Nossa relação ultrapassou o aspecto profissional e já de um bom tempo tínhamos algo que talvez se pudesse chamar de namoro. Ela não queria mais receber por suas visitas e, sempre que precisávamos desabafar, procurávamos um ao outro.

Quando ela chegou, a primeira coisa que quis foi saber por que eu estava me escondendo.

— Não fiz o que esperavam de mim.

O Alves estava vivo. Ou, pelo menos, assim eu o deixara lá, naquele quartinho sórdido no centro da cidade.

Sem mais perguntas. Ela pegou uma cerveja para mim no frigobar. Perguntou o que eu queria comer. Respondi-lhe que nada. Ela ligou para a cozinha e ordenou alguns sanduíches quentes. Disse que estava com fome e que, mais tarde, eu também havia de querer comer.

Depois ela se sentou no sofá em que eu já estava e deitou minha cabeça em seu colo, acariciando-me o cabelo. Ligou o televisor e começou a passar os canais a esmo.

O sanduíches chegaram. Cada um de nós comeu um.

Mais tarde, na cama, depois de uma trepada meio banal, deitei-me de costas e, fingindo dormir, pensei nas opções de fuga e se eu gostaria que Alícia fosse comigo.

Era impossível dormir. A cabeça confusa. Não conseguia parar de pensar. E pensava desordenadamente. Alícia, do meu lado, parecia ter pegado no sono.

Eu também pensava no Alves, se ele conseguiria, ou mesmo se queria, escapar. Algum tempo depois espalhou-se a notícia de que ele tinha se matado. Nunca vi corpo, nunca vi sepultura, nunca pude saber o que lhe aconteceu de fato.

Sem que eu notasse, o sono veio. E sonhos, de que não me lembro.

Não me lembro porque não costumo mesmo me recordar de meus sonhos. Não me lembro também porque fui despertado de modo bem particular, por um ruído bastante meu conhecido, o de um cão de revólver sendo armado.

Abri os olhos. Alícia, de pé, diante de mim, com um .38 apontado para a minha testa.

Fiquei triste, fiquei surpreso, mais triste que surpreso. Ali estava a pessoa em quem mais confiei em minha vida, com uma arma apontada para a minha cabeça, no justo momento em que esta cabeça ia ficar a prêmio na praça.

Alícia fora posta junto de mim para me vigiar e eu nunca percebera isso. A carne é fraca. O coração, ainda mais. Olhamo-nos, a arma entre nós.

— Acredite, eu não queria te dar esta decepção.

Permaneci mudo. Ela apertou o gatilho, a espoleta foi detonada.

Sempre gostei do calibre .38. É meio que um automóvel popular das armas de fogo. Em todo lugar se encontram armas e munição .38, por excelência a escolha preferencial do homem médio. Todo mundo tem, todo mundo sabe mexer, tem a força suficiente para o que, em geral, preciso fazer e é a arma que mais facilmente desaparece na multidão.

Fiz do .38 minha ferramenta básica de trabalho. Apenas excepcionalmente faço uso de outros calibres, ou de outras armas. Faca ou .22, quando a morte deve ser dolorida, longa. Corda, ou qualquer outro instrumento constritor, quando devo passar por um detector de metais para chegar ao alvo. 9mm ou .40, quando as suspeitas devam recair sobre policiais ou outras autoridades. Explosivos, quando não há outro jeito. Sempre me recusei a usar veneno, coisa de viado, e fogo, muito difícil de controlar.

Tirante raras situações especiais, sempre vou de .38. Costumo carregar dois comigo. De noite, quando vou dormir, sempre deixo um deles num lugar evidente, bem fácil de encontrar, carregado com balas de festim. O outro fica comigo, bem perto, sob o travesseiro, o que não é nada confortável, ou na gaveta do criado mudo, ou ainda debaixo da cama, carregado preferencialmente com balas de ponta oca e, também preferencialmente, com um silenciador atarraxado na ponta do cano. Quase sempre é melhor não fazer barulho.

Alícia apertou o gatilho. Eu sabia que ela não viera armada, pois mexi em sua bolsa para pegar cigarros, nosso relacionamento incluía essa espécie de liberdade.

Nas coisas que ela me trouxera de casa também não havia arma. Eu verificara, não por suspeita, mas só para me assegurar de que nada importante fora esquecido.

Sua bolsa estava limpa. Sua roupa era muito justa. Não tinha onde ela esconder um revólver do tamanho daquele posto na minha cara.

Alícia disparou, houve o estampido. Esse é o momento em que normalmente me aproveito para pegar o revólver perto de mim e, digamos, liquidar a fatura. Meu pretenso assassino ainda se encontra sob o efeito do disparo, certo de me haver matado. A coisa com que ele menos conta é com uma pronta reação do suposto defunto, eu, no caso. Esse ardil já me salvou a vida mais de uma vez.

Houve o estampido. Um barulho altíssimo, que decerto me provocaria alguma perda auditiva permanente. Ela permaneceu de pé, do jeito que estava antes de atirar, parecia petrificada. Não era possível que fosse uma novata, mas agia como tal. Ninguém, em sã consciência, mandaria uma pessoa totalmente crua para cuidar de mim.

Me movi. O som da explosão ainda ecoava por toda a minha cabeça. Gritei um palavrão bem alto, mal me escutei.

Sentei na cama. Alícia, linda, fraca, continuava imóvel, a arma ainda segura pelas duas mãos, mas apontada para baixo.

Havia lágrimas em seus olhos, e um ligeiro tremor, não sei onde.

Dei um suspiro fundo.

Tinha gente batendo na porta do quarto, vozes falando ao mesmo tempo. Eu precisava atender antes que resolvessem chamar a polícia.

Aquele era um hotel de alto padrão, não um pardieiro de beira de estrada ou centro de cidade. A polícia só entraria lá se fosse solicitada, nunca chegaria abrindo caminho a pontapés e recolhendo todo mundo para averiguação. Bastava abrir a porta e controlar os ânimos.

Pedi que aguardassem. Fui ao banheiro e lavei bem o rosto, para apagar resíduos do disparo. Depois, fui até a porta.

Era o chefe da segurança do hotel. Atrás dele, esticando os olhos, um punhado de hóspedes em roupas de dormir. Curiosos. Sempre os há, ricos ou pobres.

Pedi ao chefe da segurança que entrasse. Ele entrou, com aquele olhar de ameaçadora suspeita que todos do ramo, policiais, seguranças, vigias, leões de chácara, usam para intimidar os incautos. Normalmente, procuro deixá-los satisfeitos e finjo-me receoso diante daquela atitude. Não tenho por que contrariá-los de graça.

Trouxe o chefe da segurança para dentro do quarto. Pedi-lhe mil desculpas pelo acontecido. Mostrei-lhe uma identidade que me dizia membro de uma agência de segurança nacional e me autorizava o porte de arma. O olhar duro deu uma amolecida.

Disse-lhe que estava com uma acompanhante e que, nesse instante forcei um sorrisinho sacana, houvera um acidente durante uma de nossas brincadeiras na cama.

Aquele quarto de hotel era, na verdade, um conjunto de sala, quarto e banheiro, usualmente chamado de suíte. Estávamos na sala. O chefe da segurança disse-me que queria ver minha acompanhante, para se certificar de que tudo estava bem.

Abri a porta do quarto, Alícia estava saindo do banheiro, nenhuma arma à vista. Ele se deu por satisfeito.

Antes de nos despedirmos, pedi-lhe discrição e coloquei em sua mão uma quantia que devia equivaler a dois meses de seu salário. A linguagem universal. O olhar de cana dura desmanchou-se de vez e ele saiu me desejando uma ótima estadia e se pondo ao meu dispor para o que fosse necessário.

Voltei para o quarto. Alícia estava sentada na cama, cheia de lágrimas correndo de seus olhos.

— Agora você vai me matar?

Olhei-a, sem saber que resposta dar. Não, eu não a mataria. Eu estava com raiva, com muita raiva. Mas jamais a mataria. Não agora, que sabia que ela me amava.

A carne é fraca. E fraqueza é coisa que se encontra em qualquer lugar. Amor, não.

Para dar vazão à irritação que ainda sentia, peguei o revólver com munição verdadeira e silenciador em meu criado mudo e joguei-o no colo dela.

— Pronto, pode terminar o serviço. Com esse daí não vai ter erro nem barulho.

Ela pegou o revólver e o largou no criado mudo do seu lado. Olhou-me, como se quisesse dizer algo, mas só conseguiu me abraçar forte e cair num choro convulso.

Eu também a abracei. Eu também chorei.

E nos beijamos.

terça-feira, 15 de março de 2011

uma escuridão na luz

“Encare o mundo assim: o mal que se sofre hoje é o mal que se inflige amanhã.”

O pai olhava-o sério, enquanto ele se esforçava para não retribuir o olhar, buscava qualquer outro ponto de interesse nos arredores (nada o interessava ali, muito menos o pai, ele só ficava e fingia prestar atenção porque era coagido). Medo dos tapas, bem sabido que encarar genitor é infração com pena mínima de um tapa, na cara.

“Sempre tenha medo. Montes. Medo nunca é demais.” Outra pérola. “Meu deus do céu, que faço com estes olhos? Não encarar o velho, não encarar o velho, não encarar o velho.” Bom, ao menos ele estava seguindo à risca o conselho, naquele exato instante, estava a ponto de se cagar todo de medo.

Ele nem tinha lembrança de quando começara, sabia somente que o medo o acompanhava de longa data. E aumentava, aumentava muito com a proximidade do pai ou da mãe.

“O que você sente não é medo, é respeito.” Outra valiosa lição: o pânico infundido nos filhos pelos pais chama-se respeito e não tem relação alguma com sentimentos de terror, muito embora pareça claramente manifestação do mais puro terror.

Mas, como mencionado, o pai transmitia ao filho a regra de ouro da continuidade da espécie humana: o pai fode a vida do filho e o filho fode a vida do filho do filho.

Mas o filho não queria ter filhos. Absolutamente. Ele não queria que um dia uma criança o olhasse como ele olhava os próprios pais. Todo aquele respeito.

Então o filho pensou: “Será que não posso foder a vida de meus pais?”.

Ao menos uma parte da lição ele aprendeu: devemos foder a vida de alguém.

terça-feira, 1 de março de 2011

Que que eu faço, doutor?

Tédio total. Nada acontecia na vida da mulher esclarecida. Se bem que, para alguém como ela, até o tédio era uma conquista.

A vida no vai-não-vai, indicador enterrado no nariz, ficar assim era o maior terror daquela criatura, pois surgia o risco de ela começar a dialogar consigo e descobrir seu mundo interior, nada bonito.

Nas raias do desespero, buscando sofregamente qualquer fuga, aferrou-se com unhas e dentes ao primeiro, e único, toquinho de vela em que se acendeu uma chamazinha anêmica, nas amplidões de seu vazio mental.

De um pulo, ela chegou ao quarto da louquinha-espelho (uma das filhas, igualzinha à mâmi, só que do avesso; a outra filha, a bananinha, não participa desta história). Lá sempre havia motivo para surras.

Não deu outra, logo se ouviam berros, da velha e da filha, e pancadas, principalmente da cabeça da menina sendo marretada contra a parede.

Aquilo era legal, só que cansava rápido. Quinze minutos, era o máximo que ela conseguia fazer um espancamento durar. Depois, novamente o tédio, novamente a busca obstinada de uma distração.

Irrompeu no quarto do infibulado, seu filho, o único ser humano do sexo masculino que ela, a sádica mais frouxa do universo, conseguia subjugar.

“Anda, seu filha da puta, vamos no doutor! Melhor prevenir que remediar.” Antes de terminar a fala, ela já estava segurando o menino por uma orelha e o arrastando para a rua.

Foram a um urologista. No consultório, ela já foi entrando, arriando as calças do garoto e mandando-o ficar parado, de pé, no meio da sala.

“Olha aí, doutor! Vê só se isso é pinto que se apresente! Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas.”

E o moleque lá, no meio da sala, calça arriada, tudo à mostra. De que adiantava morrer de vergonha?

O médico tentou argumentar, tratava-se de uma criança, ainda teria muito que crescer, não havia nada de anormal ali.

“Mas como que não? Doutor, se esse menino me fica com uma piroquinha do tamanho dum feijãozinho no lugar dum bráulio de respeito, dum baita dum cacetão fudedor, que que vai acontecer? Vai acabar virando a mãozinha, vira flor, frutinha, bichona, viadinho, viadão, perobão-bão-bão! Vai sair por aí me dando essa porra desse cu pra quem quiser e não quiser! Por tudo que é mais sagrado, doutor, me dá um jeito nisso! Em tempo de guerra, qualquer buraco é trincheira!”

Louco para ver aquela mulher fora de seu consultório, o médico receitou um remédio que não faria nem bem nem mal, muito pelo contrário. Cada vez que prescrevia aquela porcaria, ele ganhava pontos no programa de prêmios do laboratório fabricante.

“Ferro que não se usa, a ferrugem o gasta.”

E lá se foi a mulher esclarecida, arrastando o menino, sem nem lhe dar tempo de abotoar as calças.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

patéticos eméticos

Muito calor. E buracos. E um desprazer, um desprazer tão profundo. Quase uma arte.

Ao volante, o sujeito mais sabido do universo. Bufando. Ele bufava pra caralho. Talvez bufar o fizesse dirigir melhor. Fosse assim, deveria triplicar as bufadas.

Aquilo era uma família. Não sei se rio, não sei se vomito.

Muito bem, falemos de coisas deprimentes.

Imagine que se armazenasse o passado em pequenos recipientes, algo como esferas transparentes. Cada vez que quiséssemos evocar uma lembrança, bastaria alcançar a esfera correta e observá-la. As esferas seriam todas de tamanho que coubesse fácil na mão. Ao segurá-las, recapitularíamos os momentos desejados.

Não é assim. A porra da esfera tem diversos tamanhos. Às vezes é enorme, feia, fedida, espinhenta. E quase sempre nos vem de encontrão, sem escolha alguma.

E lá ia a família. O pai a bufar, a mãe a cacarejar e as crianças a fazer a única coisa que uma criança é capaz de fazer, especialmente quando tem seu destino entregue a uma dupla como aquela, as crianças, ora, enchiam o saco de tudo e de todos ao seu alcance.

Depois de muitas horas, quilômetros, calor, gritaria, gasolina, barbeiragem, comida ruim, buracos, tapas e outros entretenimentos, chegava-se a Cudomundópolis, capital de Cudomundolândia. Calor, umidade, mosquitos, analfabetismo, música vagabunda, trinta em cada quarto, banho frio compulsório, tudo em troca de um deleite à beira-mar.

E o grande homem lá, todo cheio, inchado mesmo, um baiacu. Patético. Emético.

Que plenitude.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

um urubu pousou na minha sorte

A mãe andava com ideias. Entre as brigas com o maridão e a depressão crônica causada pela permanente carência de sexo, ela pensava, ou, ao menos, tentava pensar. Se bem que, pensando melhor, tentar pensar é algo como tentar ter um cérebro. Ou se tem, ou não se tem.

Mas era fácil notar quando a velha maquinava. O semblante soturno ficava ainda mais soturno, a recitação de ditos populares dobrava, triplicava.

“Quem com ferro fere com ferro será ferido.”

O espectro cor de chumbo materializava-se nos quatro cantos da casa, sempre a vaticinar.

“Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.”

O filho, embora pequeno, já vivera o bastante para saber que, daquela atitude, coisa boa não poderia advir.

“Filhos sois, pais sereis.”

A velha tornava-se ainda mais assustadora e o filho, ainda mais assustado.

“Os olhos são a janela da alma.”

E pronto. O moleque não conseguia esconder o que sentia. Os olhos cheios de medo criavam a vítima perfeita para a mente cheia de suspeita da velha.

Era questão de tempo.

E eis que, um dia, a garra cinzenta tomava-o pelo braço.

“Anda! Vamos ao doutor. Você precisa se tratar. Passarinho que come pedra sabe o cu que tem.”

Mulher de seu tempo, evoluída, muito esclarecida, primário quase completo, mente aberta, uma cabeça arejada.

O médico examinou o moleque.

“Você tem sentido alguma dor, algum entupimento, alguma congestão?”

“Não.”

Voltando-se para a mãe.

“Este menino não tem nada.”

“Como não tem nada, doutor? Ele é louco, louquinho da silva. Mija na cama, tenta mexer no xibiu das irmãs, xinga deus e o mundo. Completamente louco. Cobra que não anda não engole sapo.”

O médico então disse que sua especialidade era ouvido, nariz e garganta.

“Mas é que eu achei que, se o senhor já mexe com ouvido, nariz e garganta, podia logo aproveitar e dar uma olhada também nos miolos, que ficam aí, ó, do ladinho. Quando a carroça anda é que as melancias se ajeitam!”

O otorrinolaringologista achou que nem valia a pena responder, mas não resistiu e sugeriu à velha que procurasse um psiquiatra e marcasse uma consulta, para ela, não para o filho. O menino não sabia onde enfiar a cara, tamanha a vergonha.

“Vamos. Quanto mais alta a árvore, mais alto o tombo.” A velha agarrou o moleque pelo braço e saiu arrastando-o. Em casa, aplicou-lhe uma surra.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

hora da boia

À mesa, a família. Bem podia ser um cocho. Pusessem ali um medidor de ruído, não haveria escala que comportasse tamanho grau de poluição sonora.

O pai, sem dúvida, candidato favorito a barrão do século, seja pelo refinamento de segurar os talheres como um par de marretas, seja pela elegância com que enchia a boca bem cheia mesmo para depois falar, proporcionando assim, aos circunstantes, uma espetacular sequência de esputações das mais variadas substâncias numa miríade de formas: grãos de arroz e feijão, flocos de farinha, caroços de tomate, fiapos de carne, perdigotos de azeite com vinagre. Se fosse posta uma chapa de vidro na frente daquela bocaça, ao fim de cada refeição se obteria algo como uma nova colagem pós-moderna.

Na primeira vez em que ouviu o pai mastigando, o garoto pensou que um caminhão-betoneira tivesse estacionado na frente da casa.

“Fecha as asas!” A frase saiu de dentro daquele vórtice junto com uns farelos de gema de ovo cozido e um talinho de brócolis. Ninguém entendeu o que o velho disse, o que tinha de comida naquele buraco, não havia som que saísse claro. Mas todos sabiam que o recado era para o garoto. Sempre era.

Ele tinha raiva. Profunda. Raiva de ter raiva. Mas era o que sentia. Não tinha jeito. Como ter domínio sobre si, se não tinha domínio nem sobre seu espaço na mesa de refeição? E a raiva vinha, inevitável, e a raiva era engolida, inteira, grossa, lenta, como uma generosa colherada de merda.

“Não se faça de surdo agora! Anda! Fecha essas asas, sua poia inútil!” Fechar as asas significava que o moleque devia comer com os cotovelos colados ao corpo. Assim, feito se não tivesse braços, como se fosse uma espécie de tiranossauro rex, uma espécie com poder lesivo quase igual a zero.

“Para de fazer barulho mastigando!” Seria possível que ele, um garoto, fizesse mais barulho com a boca que aquele velho? Seria possível mesmo que ele, pouco mais de um metro de altura, vinte e poucos quilos, produzisse sequer metade do ruído que o velho produzia com aquela latrina gigante que possuía no lugar de uma cavidade bucal?

“Tira esse copo de perto da mão, você vai derrubá-lo!” E o velho pegava o copo do garoto e o colocava onde bem entendia, desde que longe do alcance do garoto.

O velho socava a forragem para dentro do bucho com uma sofreguidão que até deixava seus comensais apreensivos, com medo de que ele tivesse um piripaque, ou ainda de que, naquela celeridade, por engano, engolisse um talher, quiçá a própria mão.

“Vê se come devagar, moleque! Esse daí é incapaz de aprender qualquer coisa! Maledetto! Vai ver só quando uma úlcera te perfurar as tripas!”

Mais uns instantes e:

“Segura esses talheres direito!”

Nessa altura, o garoto constatava a vanidade de haver feito um prato, bastaria colocá-lo vazio diante de si e esperar que o velho o completasse com os fragmentos que voavam de sua boca cada vez que lhe grunhia uma repreensão. Esse alimento, óbvio, até já vinha salivado. Pré-digerido. Como os passarinhos.

“Fica com a cara mais longe do prato, ô animal de rabo!”

Por que raios ele simplesmente não dizia: “Faça tudo que não estou fazendo, bocó!”?

Mas dias também havia em que aflorava a sensibilidade, a delicadeza daquela alma. Em ocasiões assim, se acaso à mesa surgisse uma discussão entre seus filhos, ele inclinava a cabeça um pouco para baixo e para o lado, fechava os ombros sobre o peito e declarava num tom de sofrida resignação, olhos perdidos no nada: “Se eu soubesse que ia sair do trabalho e pegar condução, só para vir almoçar com minha família e encontrar este ambiente de inimizade e discórdia, eu teria logo comido na rua mesmo”.

A mesa ficava em silêncio. Tumular. Todos sabiam que o sujeito estava a um passo de um chilique, se tanto.

Se era por falta de adeus...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

o funeral do bebê

Os familiares entraram em casa, fecharam a porta e suspiraram de alívio. Basta de pesar. Suspiraram de alívio porque estavam aliviados.

Na noite anterior, barba por fazer, corpo ensopado de suor, lambuzado de óleo, o hálito puro cigarro e cachaça, o bebê também deu um suspiro, após uma longa gargalhada, e um peido, e morreu, fora de casa, num estabelecimento de reputação nada duvidosa, todos sabiam tratar-se de um puteiro. Havia três mulheres na cama, haviam-no untado inteiro e brincavam de tentar agarrá-lo enquanto ele, rindo de se acabar, escapava dos braços de uma para cair nos de outra.

Desde os seis meses que o bebê levava essa vida de pura orgia.

Nascera normal, apesar de um pouco avantajado nos genitais, o que não deixou de provocar certo orgulho no pai. Ao fim de três meses, entretanto, pai, mãe, avô, avó, médico, todos a custo dissimulavam o asco experimentado diante da visão daquele corpinho que já começava a se recamar de pelos e a ostentar um pênis bastante adulto.

Um pouco mais e começaram as ereções, que enchiam mulheres de culpa e homens de inveja. Era amamentar o bebê e lá estava o mastro em riste. Era colocar o bebê no banho, começar a ensaboá-lo e pronto, a flácida sucuri convertia-se em milenar sequoia.

Havia quem, longe das vistas de terceiros, tirasse proveito do fenômeno, a babá, a irmãzinha mais velha e suas amiguinhas, primas, primos, sem contar um tio, seminarista.

E o bebê? Bom, este nem de longe escondia seu crescente gosto pela bandalheira. A babá levava-o ao parque e exibia o portento às colegas, cujas reações iam de um nojo voluptuoso a uma desabrida avidez. Como seja, nenhuma delas deixava de dar ao menos uma pegadinha na sobeja aberração. E o bebê sorria, ria, gargalhava.

A vida do bebê, não obstante muito distinta da apregoada no manual homônimo, era uma maravilha, do ponto de vista do bebê e de seus comparsas de putaria, claro.

Já para os pais, aquilo era insuportável. Um dia, sugando o peito materno, o calhordinha ejaculou, parecia um chafariz, acertou até a cara da mãe. Em lágrimas, ela esperou o marido chegar, contou-lhe da proeza do pimpolho e exigiu providências. Na falta de ideia melhor, o pai aplicou uma tunda no moleque e o pôs no olho da rua.

E lá se foi o bebê, engatinhando.

Não foi difícil obter sustento. O que não faltava era gente que pagasse para ter aquele colosso entre as pernas ou diante de uma câmera.

Como astro pornô, ele passou a ganhar o suficiente para bancar uma vida de pura esbórnia. A mesma vida que logo o ceifou.

“Melhor assim!” Suspirou a parentalha, antes de se dispersar e voltar ao cotidiano. O desgraçado nem deixara herança, tudo se fora nas farras, memoráveis.

sábado, 1 de janeiro de 2011

papai mamãe e bacorinho

Fascínio pelo suicídio. Viche, desde tanto. Grito de socorro, segundo supostos entendedores dos meandros da alma. Vá saber.

Depois de décadas, ainda a ânsia. De carinho. De aceitação. Ainda. De certo modo, ainda mais.

Aquele par de desorientados, sempre à deriva. Agora velhos. Como de hábito, tristes, comuns, apáticos.

Sempre assim. Desde sempre.

O filho lá, longe das vistas, entre modos e modos de morrer. Ao seu redor, chamas de culpa, torrentes de desejo. De hora em hora, uma bronha em prol da paz, a certeza de desgraças iminentes. O pobre cacetinho todo esfolado, quase fumegando.

“Você ainda vai se arrepender, seu moleque! Escuta o que estou te dizendo!”

“ É, escuta o que teu pai está te dizendo! Aqui se faz, aqui se paga!”

“Leproso! Leproso e cego! Cegueira da braba! É assim que você vai terminar!”

“É! Leproso e com cegueira braba! Leia Allan Kardec! Quem não aprende em casa vai aprender na escola da vida!”

“Sai desse banheiro, caralho!”

“É, caralho, sai desse banheiro! Quem com ferro fere com ferro será ferido!”

Na saída, invariavelmente, o acompanhamento de novas pragas, mais pés-d’ouvido, safanões, cascudões, pés na bunda. E o pai falando. E a mãe secundando.

“Será que não sabe fazer outra coisa na vida?”

Pescoção.

“É, não sabe fazer mais nada? Diga-me com quem andas que direi quem tu és”. Concordância verbal, dentre muitas outras coisas, não era, definitivamente, o forte dela.

Pé na bunda.

“Eu ainda mando tirar a porta desse banheiro!”

“É, a porta do banheiro! Quem não deve não teme!”

Nessa altura, já conseguira sair do alcance dos golpes.

“Poetinha de merda!”

Ao ouvir isso, a mãe desaba em gargalhadas.

“Poetinha... de merda! Boa essa, pai! Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!”

E os dois, gargalhando convulsivamente. “Ai, pai, que eu acho que vou me borrar toda! Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje!” “Ai, mãe, que eu acho que já me borrei! Punhetinha de...!” O riso atalhava as falas.

Normalmente corria para o quarto, fechava a porta, pegava a corda, já pronta, com o nó de correr. No quarto, providencialmente, havia um gancho bem forte chumbado no teto. Ante tal evidência, a mãe talvez sentenciasse: “O que não parece com o dono é roubado”, ou outra coisa ainda mais sem sentido.

A corda no gancho e ele na outra ponta da corda, abandonado ao próprio peso, as gargalhadas ecoando no corredor.

Não, ainda não seria daquela vez. Não sabia se por coragem, por covardia, por teimosia, só sabia que não. Apenas prosseguiria, com a garganta meio doída.