sexta-feira, 1 de março de 2013



O MEMENTO MORI


hein?

                 O que é memento mori? Primeiro, uma expressão latina. Significa, literalmente, lembre-se da morte. Consta que era usada em Roma como uma exortação, para evitar a cegueira causada pelo poder, havendo registros de governantes e generais que mantinham junto a si, especialmente em seus triunfos, pessoas a lhes sussurrarem nos ouvidos que eles eram velhos, que não viveriam para sempre, que eram carecas, banguelas, barrigudos, feios, bobos, burros, uns buchos com as ancas cheias de culote, papas nos olhos e o diabo, tudo para evitar que a glória os embriagasse e os levasse a se esquecer de sua finitude e da fragilidade inata a tudo que vive.

                 Veio a Idade Média e, com ela, o que talvez tenha sido o auge do catolicismo como poder político. E aquele pessoal não estava pra brincadeira não, queria impor sua fé a todo custo. Claro que o memento mori, essencialmente uma exortação à modéstia ou até à subserviência, caiu como uma luva nos planos de dominação do mundo da santa madre. O conceito não só se difundiu como também ganhou corpo, tornando-se tema de obras de arte e assim ultrapassando o período medieval para chegar a seu ápice, até onde pude verificar, sob a exacerbada dramaticidade da arte barroca.

                 E foi aquele festival de esqueletos, caveiras e ossos avulsos em quadros, esculturas e obras arquitetônicas como túmulos, mausoléus, o cacete, tendo havido inclusive templos decorados ou mesmo construídos com ossos humanos, não por acaso denominados capelas de ossos, em lugares como Itália, Portugal e República Tcheca. Caso queira saber mais a respeito dessas edificações: http://cogitz.wordpress.com/2009/09/01/ossuaries-walls-of-bones/ (texto em inglês, mas as fotos falam por si). E todo esse esbanjamento de ossos só pra lembrar o camarada de uma coisa que, por mais que façamos, é inesquecível. E ainda que pudéssemos esquecê-la, ela nunca se esquece de nós.

                 Passado o barroco, nem por isso o memento mori passou. Continuou como elemento importante da decoração mortuária e, fato mais notável, adaptou-se a novos tempos, fixando-se na raiz de uma nova ordem de ideias, por assim dizer. Teve forte influência na literatura gótica, com a qual se inaugurou a história de terror e em cuja esteira surgiu também o gênero policial, com a pioneira criação, pelo gótico tardio Edgar Allan Poe, de Os Assassinatos da Rua Morgue.

mutatis mutandis

                 Mais interessante ainda, nesse processo evolutivo, foi a mudança operada na finalidade do memento mori. Ele foi gradualmente se despindo de seu caráter de advertência, de seu conteúdo moral, para se converter, cada vez mais, numa espécie de fetiche inspirador de atitudes, de modos de ser e de pensar, haja vista, em última análise, góticos e emos do presente.

                Durante suas sucessivas transformações sociais, o memento mori viveu uma fase muito curiosa, que eu considero, junto com a das mencionadas capelas de ossos, sua expressão mais sombria: o memento mori fotográfico vitoriano.

momentos kodak

A crescente popularização da fotografia, a partir da segunda metade do século XIX, aos poucos foi tornando acessível algo antes exclusivo daqueles poucos abonados com caixa suficiente para bancar um pintor de razoável talento: o retrato.

Ocorre, entretanto, que, naquela época, ao que parece, o povo gostava de morrer muito mais que hoje em dia. De toda forma, fosse por que fosse, morria-se bem mais cedo. As taxas de mortalidade infantil, então, eram pra Herodes nenhum botar defeito.

E era aí que surgia um problema grave e, por conta do que se explicou no parágrafo anterior, não muito raro. Ora, o que fazer quando o camarada resolvia esticar as canelas antes da chegada do lambe-lambe? Bastava fingir que o defunto estava vivo. Simples, não?

E assim, o memento mori, que desde o nascedouro trazia uma vocação manifesta para a estranheza, assumiu uma das funções mais esquisitas de sua história, deixando de ser, a rigor, uma lembrança da morte para se converter, mais propriamente, numa lembrança dos mortos.

E tome foto de defunto. Num lugar e época dos mais bizarros, a Inglaterra vitoriana (confira: http://listverse.com/2009/08/29/top-10-creepy-aspects-of-victorian-life/), o que haveria de tão macabro em guardar imagens de cadáveres?

Drácula Jr.?
Nesta altura, porém, cumpre traçar uma distinção. Podem-se identificar, conforme o que chamaremos aqui de intenção do retrato, dois tipos básicos de memento mori : o que simplesmente mostrava o morto como tal, ainda hoje praticado em meios mais tradicionalistas, como certas áreas rurais do Brasil; e o que era feito a fim de dar ao finado uma aparência de vivo. Do primeiro tipo, coloquei aqui, como exemplo, as fotos do Draculinha e do Raio de Sol (continue lendo que você entenderá). Do segundo, temos a tia Ermelinda e o Abre o Olho Moleque.

Abre o olho, moleque!

              A meu ver, era no segundo tipo que morava o perigo. Não que eu considere sadio guardar fotos de recordação de um cadáver, seja como for, mas também de modo algum estou aqui para ser a palmatória do mundo. Afinal, quem não tem suas esquisitices? E ainda mais, quem não tem seus esqueletos no armário? Acredito que qualquer um, a começar por mim, se submetido a um pente fino de sanidade mental, acabará seus dias vestindo uma camisa de força num quartinho acolchoado.

Enfim, tirante o sabor da pilhéria, não estou aqui para condenar o jeito como as pessoas querem manter suas recordações. Posso até julgá-las, é inevitável, mas não pretendo, absolutamente, condenar ninguém ao cadafalso por ser diferente de mim. Caso contrário, eu mesmo já deveria estar, há muito, comendo grama pela raiz no revertere ad locum tuum, além de, quem sabe, ter minha formosa figura ilustrando algum memento mori.

Muito bem, feitas as ressalvas, passemos à esculhambação.

A tia Ermelinda é a do meio. As outras duas estavam
vivas no instante do clique, suponho.
Cá entre nós, será que já não bastaria tirar a foto do cadáver no leito ou no caixão, mãozinhas postas, olhos fechados, etc.? Gostaria de saber quem foi o primeiro luminar que veio com a resplandecente ideia de mandar o morto se fingir de vivo. Merecia um prêmio. Pintar olhos abertos e bochechinhas coradas? Me recuso a acreditar que não houve ninguém capaz de chegar no cidadão e comentar: “Seguinte, leva a mal não, mas tô achando que esse troço vai ficar meio mórbido, na boa, de um baita mau gosto”.

PQP, mórbido é apelido! A gente olha pro trem e fica sem saber se ri ou se chora. Patético? Cômico? Maluco? Acho que tudo isso e mais algumas outras coisinhas.

E se ainda acrescentarmos ao caldo as tais das (in)felizes coincidências? Dá uma olhada na foto aí embaixo. Percebeu o que há de errado nela? Pois é, o sujeito me vai fazer propaganda de um estúdio chamado Raio de Sol (Sunbeam) na foto de um cadaverzinho? É soda.

Estúdio Raio de Sol? Será que não
dava pra ser um pouco mais
irônico?
Se o paciente leitor desejar ver as fotos aqui exibidas e ainda várias outras: http://cogitz.wordpress.com/2009/08/28/memento-mori-victorian-death-photos/.

pensando bem...

                Comecei a escrever este texto convencido de que o memento mori fotográfico era uso morto e enterrado. Todavia, agora me dou conta de que tudo na vida é uma questão de ponto de vista. Como quem diz um lugar-comum diz dois, aqui vai outro: se você quer conhecer uma pessoa, dê-lhe poder.

O fato de uma frase ser lugar-comum não significa que ela não seja verdadeira. Realmente, é no poder que as pessoas se mostram. E, do que pude observar até hoje, quanto mais alto se vai, menos íntegro se chega.


Não quero com isso dizer que o poder corrompe. Ou quero? O que acabo de notar é que, a continuar do jeito que vai, este artigo terminará com a cara de um desfile de lugares-comuns. Mas, retomando meu raciocínio, o que quero dizer não é que a pessoa, para obter poder, deva sempre praticar atos de corrupção no estrito sentido jurídico do termo.


Não, eu não considero que todo poderoso seja obrigatoriamente um vendido. O que considero sim é que, conquanto a lisura na acumulação e na disposição da riqueza seja uma componente importantíssima da integridade moral de qualquer um, os requisitos para a preservação dessa integridade não se esgotam aí.


Muitas vezes, arrisco mesmo dizer que quase sempre, o ser humano, em troca de migalhas, abre mão de princípios, crenças, amizades e assim, sem nem sujar as mãos em atos criminosos, corrompe-se em seu íntimo, trai a si próprio. E ainda há também um caso muito típico: o do sujeito que, enquanto subalterno, é um docinho de pessoa, mas, assim que elevado ao mando, revela-se o mais cruel dos tiranos.

A meu ver, gente dessa espécie também está morta, só falta o organismo parar de funcionar.

sugestão

                Por que não se resgata o memento mori para animar campanha eleitoral? Mau gosto combina com mau gosto.

Imaginem o corpo do saudoso Eneas manipulado por um ventríloquo, repetindo o famoso bordão ao lado de um candidato que se intitule herdeiro ideológico do extinto. Ou então o cadáver do bom e velho ACM sendo sacudido ao ritmo do axé sob o seguinte lema: “Estou com fulano até na morte”. Ou então: “Este candidato levanta até defunto”.

Na próxima eleição, ponha seu
memento mori pra sacudir.

No estrangeiro também se poderia lançar mão do artifício. Imaginem o corpo do Lênin, cuja manutenção, dizem, custa cem mil dólares anuais, sendo posto pra trabalhar.

As possibilidades são infinitas, basta usar a imaginação.














terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


STIFF SURE

want women to look at me and say
gee what a handsome corpse
looks alive but in the inside pure death
the perfect one baby
rigor mortis
a sure stiff
no inner fire
but lots of who the fuck could know
the more asleep
the less I live
the more I stare
the more the same they tell me
the more life looks like nothing
don’t wanna die
don’t wanna live
I just want to remain in that same place
I’ve never been since who the fuck knows

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


PAPO C
avec M. Clochard

         Hoje vamos conversar sobre esse ente tão fabuloso e, ao mesmo tempo, tão do nosso dia a dia: o automóvel.
         Muito provável que o estimado leitor conte entre aqueles que recentemente ingressaram na massa de consumo nacional. A economia cresceu, a necessidade de mão de obra aumentou, bem como a remuneração média. Vai daí que, lá um belo dia, o distinto se viu alçado a nova e mais rendosa designação em seu emprego. Subgerente da loja de conveniência, chefe de pista no posto de gasolina, supervisor dos caixas no supermercado, qualquer que seja seu novo posto, estou certo de que, junto com ele, também veio uma nova e maior remuneração.
         E foi assim que, de um modo quase mágico, descortinou-se diante de seus olhos um novo mundo, feito de fontes de leite e mel, alamedas recamadas de pedras preciosas e céus sempre a ostentar ofuscantes arco-íris, um mundo maravilhoso, onde tudo pode ser seu, mediante financiamento.
         E então o prezado se vê numa situação inteiramente nova, ou mais que nova, inusitada. Converte-se num distribuidor de dádivas. Um novo G-Shock para sua digníssima pessoa, um Xbox pro Wanderkélson, um aparelho pros dentes da Roneywalldez, um par de Asics pro Altubancyr.
         Tudo isso, porém, é café pequeno, fichinha, mero preparativo diante do que está por vir. E que um dia vem.
         E eis que enfim chega o dia, aquele momento sem par, quando finalmente são transpostos os portais de uma revenda para de lá se sair a bordo do primeiro e tão longamente sonhado automóvel.
         Agora é hora de desocupar a garagem daquelas tralhas que pareciam ter adquirido direito vitalício de permanência no lugar: o sofá de três pés, a geladeira queimada, a caixa de brinquedos quebrados, o fogão que se esbodegou todo quando a panela de pressão explodiu. Manda tudo pra laje que agora tem carro nessa casa.
         E lá está ele. Admire-o, daqui a cinco anos será todo seu. E não terá custado nem o triplo do preço à vista. Está na hora de pregar um adesivo “Presente de Deus” no vidro traseiro e ir para a rua barbarizar.
         Entretanto, antes que o meu prezado incorpore definitivamente seu novo rodante à pletórica miríade de engenhos poluidores da atmosfera conhecida como frota urbana, convém repassar umas regrinhas básicas de bom convívio:
1-     A faixa da esquerda deve ser reservada para ultrapassagens. Não acredite em mim, acredite no código de trânsito, se o bom senso não lhe bastar. Está lá, no livrão: em pista com mais de uma faixa de tráfego num mesmo sentido, a faixa mais à esquerda deve ser reservada para ultrapassagens. Ou seja, o motorista vai para a faixa da esquerda, ultrapassa e, assim que concluída a ultrapassagem, volta a ocupar a faixa da direita. Não vá na conversa do Cremildo da van, para quem qualquer espaço em que caiba a Besta é pista, os outros que abram caminho. Também não beba nos mananciais de sabedoria de dona Cotinha, sua venerável vizinha, viúva do tenente PM aposentado, que acha que, se alguém está na velocidade máxima permitida na pista, deve sempre permanecer à esquerda. Por mais que a boa senhora diga que, agindo assim, “a gente istemos no nosso direito legítimus, meu filho”, a verdade é que a gente não istemos não. Repito, confiram a legislação de trânsito, caso não confiem em mim;
2-     O mundo para fora da janela aberta de seu carro não é uma infinita lixeira destampada. A fralda suja do Kélvyson, a latinha vazia de Schin, as embalagens de salgadinho isopor e qualquer outra matéria sem mais serventia devem ser mantidas dentro do automóvel até que se chegue a local em que haja uma lixeira de verdade para recebê-las. Carregue uma sacola ou algo similar dentro do carro para guardar seu lixo e jogá-lo fora depois, garanto que não é de mau tom;
3-     Automóvel é meio de transporte, não fonte de ruído. Deixe seu bagageiro para as bagagens, não o encha de alto-falantes para estourar os tímpanos da galera do piscinão. Meu saco agradece;
4-     Se o distinto não sabe conduzir sóbrio, o que o faz pensar que com álcool sua já escassa perícia será aprimorada?
    Por hoje é só, caríssimos. Poderíamos discorrer sobre outros tópicos que, de uma forma ou de outra, dizem respeito a sua relação com seu veículo, como o porquê de se empenhar tamanha parcela da renda familiar, presente e futura, num meio de transporte e necas de pitibiribas na melhora de sua instrução, quando nada para se tornar capaz de ler legenda de filme estrangeiro. Mas isso é assunto para outro encontro     .
Mes meilleures salutations.
_______________________________

Monsieur Clochard é consultor de comportamento para classes menos favorecidas. Nascido e criado em Paris, lá sempre viveu sob as pontes mais elegantes da Cidade Luz. Ainda jovem veio morar no Brasil, onde já ministrou cursos e palestras em inúmeras comunidades das principais capitais.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

sempre assim


só o poder justifica a maldade
basta olhar para onde há poder
permanentemente todos
a se entredevorar
ninguém adquire poder para ser bom
ninguém se dobra a poder alheio pelo prazer de obedecer
o poder advém do terror
o pirralho sádico a torturar insetos nada mais faz que
se lambuzar de poder
imagem e semelhança dum deus imagem e semelhança dum homem
cumpre que se deseje matar
cumpre odiar o que se ama
amar o que se odeia
e amar ou odiar o que nos é indiferente
de modo que todos sejamos anulados
e saibamos apenas nada
sequiosos de sempre menos
embebidos em tudo
corroídos de viver

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

misteries of the mindless


shakespeare sucks

         How would anyone enjoy a Shakespeare play? I wonder maybe it happens because the thing is so unbelievably boring, so damn dullest, then people go to see if all the alleged boredom holds up with facts.

         And they go, and they see, and all they can say after seeing the thing is that that’s all true, the last two, three, or even four hours spent by them in the theatre were, beyond any doubt, the longest, the lengthiest, the wordiest of their entire lives.

         But now what to do? Everybody is leaving the theatre with a smile in the face and a word of compliment in the lips, and not a single soul to acknowledge the simple truth, to candidly utter that all people’s smiles are because they reached the end of an ordeal alive and with no permanent harm, at least at first view.

         Let’s say the truth, Shakespeare sucks. The only way Shakespeare could be more deadening than Shakespeare was if his work came as an opera, and this, I bet, somebody already must have done, if you’re curious, because I’m not, go google and check it out. And, obviously, everybody who went to see that shakespearean opera came out the theatre pretending to be in a pure state of uttermost bliss.

         But you know, I know, even they know, all they could really feel is relief.

         Shakespeare simply sucks.

sábado, 20 de outubro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Pinguinho

hoje eu acordei chorando
chorei por uma razão
chorei a perda de um amigo
a perda sem volta
a ida
o que queremos nunca
a mais presente das ausências

terça-feira, 27 de março de 2012

o dia em que deus saiu do armário

                   Deus vivia na escuridão, nada sabia de nada além da escuridão. Havia cheiros, especialmente um, que depois ele viria a aprender ser o de mofo, desagradou-o desde o início.

                   Sua vida era assim, nada de mais nem de menos, sempre escura, o que não chegava a ser mau para quem só conhecia o escuro. Quer dizer, ele também conhecia a claridade, claridade tão forte que equivalia à escuridão, claridade que nada permitia ver além da brancura total, sem contorno.

                   Tudo que ele via, nos breves instantes em que saía da escuridão, era isto: a claridade, claridade insuportável, uma luminosidade impossível, na qual nada se distinguia, aquilo que qualquer um vê quando passa do escuro total para uma luz muito intensa. Ofuscamento.

                   Havia sons, sons que Deus ouvia não distantes, mas abafados, como se vindos do outro lado de uma parede, como de fato vinham, do outro lado de uma parede não muito espessa nem muito sólida. Não, a parede era fina, de madeira.

                   Mas havia vozes, vozes havia, às vezes uma só. Quando as vozes ficavam altas, mesmo quando era uma só, se a voz vinha alta, agressiva, Deus já sabia ser praticamente certo que o arrancariam da profunda escuridão e o colocariam na estonteante claridade para logo em seguida o devolverem às trevas originais.

                   “Anda, moleque, come tudo!”

                   “Não quero!”

                   “Come tudo, que eu estou mandando!”

                   O moleque se fecha num silêncio hermético.

                   “Está bem, foi você que pediu! Deus vai te castigar!”

                   Nota-se um abalo na postura do menino, seu olhar deixa transparecer uma dúvida, um tremor.

                   A mãe, notando o esmorecimento do filho, dirige-se a um armário, põe a mão no puxador de uma porta, bem conhecida do garoto, que cada vez menos consegue dissimular o medo.

                   “Eu falei que Deus ia castigar. Não falei?”

                   O menino se encolhe por dentro, tomado por terrores abissais.

                   A mãe abre a porta do armário e puxa Deus lá de dentro, segura-o pelas axilas e o sacode na frente do garoto, fazendo sons supostamente fantasmagóricos. O moleque se rende. Com lágrimas nos olhos, começa a comer sôfrego, quase engasgando, no afã de se livrar daquela presença apavorante. Deus volta para o armário e a vaca, ou melhor, a mãe canta vitória:

                   “Eu não falei que Deus castigava?”

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

NINGUÉM É NINGUÉM

alguém me explique por que uma chupada não pode ser algo romântico
por que só flores e abracinhos e beijinhos
que bosta
será que ninguém sente diferente de ninguém
creio mais que fato
cada um é um
não único não exclusivo
mas também não totalmente comum
alguém com características próprias e impróprias
particulares e corriqueiras
ninguém é um ser inteiramente peculiar
nem inteiramente sem face
a maioria é assim
esta bosta triste
sem caminho nem perdição
apenas coisas
dotadas de animação própria
e de pensamento alheio
mas que se creem absolutamente únicas
como se luas ou sóis
mas o negócio é que a vida
ao contrário do que se diz
quase sempre para quase todos é bem boba
um troço sem sal
que queremos continuar provando
e viver
na maioria dos casos
não passa disto
todo dia comer a mesma coisa e não ver o tempo passar

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

o peso (e o cheiro) da glória

O grande homem nunca dava passo em falso. Ele sempre via o melhor caminho. Por isso que entrou tantas vezes em esquemas de pirâmide. O imbecil queria ganhar dinheiro, desde que não tivesse que trabalhar, e achava que era o único no mundo a pensar assim.

Uma vez ele se meteu numa dessas pirâmides no estilo Amway. Entupiu a casa de caixas e caixas de um sabão líquido desconhecido que era uma maravilha, uma coisa tão boa, mas tão, mas tão, mas tão boa que se venderia por si própria, sem necessidade alguma de outra publicidade que não o boca a boca. Era perfeito. Era infalível. E é evidente que não funcionou.

Resultado: o camarada não vendeu nem uma gota de sabão milagroso e tudo seguiu conforme dantes. Quem era louco de contestar um sujeito tão genial, especialmente quando o sujeito genial é muito maior que você, detém o poder econômico da casa e é dotado de uma estupidez sem fronteiras? E então a casa ficou entulhada, caixas e caixas da maravilha saponácea ocupando cada mínimo cantinho aproveitável. Agora tínhamos sabão para lavar até nossos bisnetos. Reconfortante.

Mas o melhor ainda estava por vir. Depois de uns poucos meses, três, quatro, não mais que seis, o esplêndido sabão começou a apodrecer. Era um produto biodegradável pra chuchu, tão biodegradável, aliás, que se biodegradou ainda fechado na própria embalagem. Era abrir um frasco do bagulho para a casa toda ficar empesteada com aquele miasma. Um cheiro próprio, indefinível, poderia ser de merda, de carniça, de um monte de coisa, de qualquer coisa pestilenta ad nauseam.

E o grande homem, obviamente, insistia em que se continuasse usando o sabão podre. Devíamos usá-lo no banho, na lavagem da louça. Porque o sabão era ótimo, seu único porém era o cheirinho ligeiramente desagradável, comparável ao de um contêiner abarrotado de cadáveres em decomposição.

Quem sabe, num futuro muito distante, quando aquela infinidade de sabão acabasse, nós poderíamos passar a usar bichos mortos em nossa higiene pessoal, bastaria recolhê-los da rua.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

nada de mais

pra que tantas mentes
se apenas uma pensa
todas essas bocas
essas palavras
tão idênticas
todas aquelas velhas bigodudas da minha infância
nos ônibus nas cozinhas
passavam uma vida toda
sofrendo e se amesquinhando
dormindo cedo acordando cedo
portando pesos que as enchiam de varizes
mas não de generosidade
somos todos como elas
empanturrados de convicções
certos muito certos de que a velhice nos faz sábios
quanta besteira
basta olhar
quanto velho tolo por aí
sofrimento não faz ninguém melhor
a vida não engrandece
viver nunca é mais que viver

domingo, 22 de janeiro de 2012

LA CRÈME DE LA CRÈME

não há dor maior que o prazer de causar dor
que olhar nos olhos do sofrimento
e dizer contrito
filho meu
e torcer o torniquete
só uma voltinha mais
e mais outra
e mais uma
quem sabe ainda umazinha mais
só uma
até que não haja grito
até que não haja ricto
até que nenhuma expressão
nenhum modo de externar coisa alguma
nada em lugar nenhum
retrate as entranhas do sofredor
é como um orgasmo do avesso

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

PALHAÇO EU?

engraçado meu pai

viveu afirmando crenças

como se fosse grande

como se farto de fibra

ele que cheio de trauma e de dor

nem sabia mais o que era dor

que de tanto sofrer

terminou por desconhecer o sofrimento

que de tanto precisar

chegou a crer que precisava mentir para viver

que de tanto buscar sobreviver esqueceu o que era vida

meu pai

para sobreviver

deixou de existir

sábado, 3 de dezembro de 2011

IGNORAR É VIVER

sei que algum dia sairei daqui

até lá vivo como potencial suicida

e minha nossa só espero nunca
encontrar o mundo espiritual bunda
dos kardecistas

nem céus e infernos e purgatórios

nem hordas de evangélicos católicos maometanos e o caralho a quatro

todos todos todos chatos de amargar

gostaria de um canto tranquilo reservado para obesos comilões beberrões e algo mesquinhos como eu

a bem dizer espero que haja nada

e que eu também nada venha a ser

na falta de coisa melhor

deus diabo e seus puxa-sacos

também conhecidos como religiosos

são um grandessíssimo dum baita
dum pontapé nos culhões

sábado, 12 de novembro de 2011

menos um

Escritor no sofá, prancheta com poucas folhas, caneta na mão, calor, certa umidade, calor, moscas, calor, mosquitos, calor, mutucas, calor, muito calor e mais calor. Nunca vou conseguir pensar com esta porra de clima, pensava o escritor.

Nunca se dizia escritor. Se um sujeito parasse na frente dele e dissesse sou escritor, ele riria, riria pra valer da cara do infeliz, ainda que só por dentro. Ria de si mesmo quando se pensava escritor e isso já era riso suficiente para humilhá-lo. Podia passar sem zombarias alheias, nunca se dizia escritor.

Ainda que fosse escritor, escrevia tão pouco e, do pouco que escrevia, tão pouco ao menos chegava perto de prestar. Se se dissesse escritor, estaria se expondo não só ao ridículo de soar pretensioso, como também ao de passar por mentiroso.

Pois então o escritor naquele calor filha da puta empenhava-se em fazer o que nunca fazia: escrever.

E aí do nada apareceu o porreteiro e, antes que se pudesse abrir a boca, sentou uma puta duma bordoada na cabeça do escritor, que nem mudou de posição, ficou lá, no sofá mesmo, o queixo encostado no peito de um modo estranho, o olhar quase tão morto quanto em vida, a testa rachada e sangrada; a caneta, uma bonita tinteiro com pouquíssimo uso, rolou da mão para o assento do sofá, a prancheta permaneceu onde estava, sua extremidade inferior presa entre a coxa e a tremenda pança do defunto.

O porreteiro então pegou os escritos do escritor e deles fez uma fogueira que bem pouco durou.

“Menos um.”

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

deus não existe

Difícil, impossível mesmo dizer por que alguns lampejos vêm à mente em um dado momento, em um certo lugar. Eles vêm, eis tudo.

Foi assim com Deus. Lá estava ele em seu escritório sem pensar em nada, explorando sexo na internet, e súbito a certeza brotou dentro de si pétrea, arraigada, inapelável.

“Puta que me pariu! Eu não existo!”

Parou e encarou por mais um momento seu vazio mental, quase que uma baba lhe escorre do canto da boca.

“Nem princípio nem fim? Nem primeiro nem último? Nem alfa nem ômega? Nem boca nem cu?”

Quase se distraiu com um esplêndido par de seios que surgiu na tela do monitor, fruto da pesquisa que vinha fazendo. Mas logo deu por si e voltou à pasmaceira original.

“Que bosta! Acho que perdi a fé em mim...”

Ligou para a secretária.

“Dona Maria, cancela todos os meus compromissos da semana.”

“Está bem, Doutor.”

“Se perguntarem, diga que fui fazer uma desintoxicação nos States. Pensando melhor, cancele meus compromissos do mês.”

“Do mês?”

“É! Alguma objeção?”

“Perdão, Senhor, é que é tão raro o Eterno desmarcar Sua agenda.”

“Pois guarde sua curiosidade para a senhora e faça o que Eu mando!”

“É pra já! Fiat voluntas Domini!”

Era nisso que dava ficar de intimidade com a criadagem. No casamento de dona Maria, até hoje não sabia bem como (sempre bebia demais, o que, volta e meia, causava uns brancos fatais na Divina Onisciência), terminara Ele, Deus, no leito nupcial com dona Maria (menos mau que tenha sido com ela e não com o marido, forçoso reconhecer), enquanto José, o recém-casado, roncava no sofá da sala, de porre.

Na manhã seguinte, a velha música: despertar numa cama estranha, num quarto estranho e dar de cara com uma cara estranha a fitá-lo sorridente. Mas a cara não era estranha, era a cara de dona Maria, casada na noite anterior, e não com Ele.

“O Senhor salvou minha noite de núpcias. Fosse eu contar com aquele lá (indicou com o queixo a sala, onde José estava)... Bebeu mais que os convidados, arranjou briga com todos os garçons e até com o motorista da limusine, que por isso foi embora e nos deixou a pé. Ainda bem que o Senhor se ofereceu para nos trazer até aqui.”

“E aí, nós dois... Como foi que aconteceu?”

“O banana apagou dentro do carro, ainda no caminho. Não acordava de jeito nenhum, a gente trouxe ele arrastado para cá. Daí eu comecei a chorar de decepção, o Senhor me abraçou, eu encostei a cabeça no seu peito, a gente se beijou e... terminamos aqui.”

Deus se sentia no limiar de uma crise de pânico, especialmente por causa do olhar de dona Maria, meloso.

“Bem que o Gabriel me avisou.”

“Gabriel?”

“Ele trabalha na expedição, todo dia traz a correspondência e me entrega. Um anjo de pessoa. Com todo respeito, ele me disse que o Senhor nunca dá ponto sem nó.”

Ela o encarou com aquele sorriso. Apavorante.

“Acredita que eu era virgem?”

“Mas nem que a vaca tussa!”

“Era sim, bobão.”

Da inusitada aventura houve um fruto, como é do conhecimento de todo o mundo cristão.

Ao contrário de Deus, dona Maria não sentiu nem uma gota de vergonha do acontecido. Longe disso, quando descobriu que fora emprenhada por Deus, fez todo alarde possível e não se teve notícia de repúdio a seu ato, tudo que se via era admiração e inveja. A dona fora comida pelo Todo Poderoso, ora. José, por sua vez, tornou-se o manso mais notável da história da humanidade, registrou e criou o Filho do Outro sem dizer um ai. Justiça se faça, que podia ele contra o Criador?

O fato de ter em casa o Filho de Deus trouxe ao casal fama e prestígio. A clientela da marcenaria de José cresceu exponencialmente e Maria foi rapidamente promovida e recebeu um aumento substancial no salário, tornando-se secretária-chefe do Onipotente.

O tempo passou, o Menino cresceu. Quando do faniquito divino ora relatado, Jesus já estava na casa dos vinte e vivia tendo atritos com José, que não podia mais com a falta de consideração daquele borra-botas, toda hora a se proclamar o Filho de Deus.

Depois de aplicar a esfrega em dona Maria, Deus pegou o celular e ligou para seu motorista.

“Cristóvão, por onde que você anda?”

Cristóvão respondeu do outro lado da linha, uma resposta que Deus ouviu sem muita paciência.

“Tá bom, tá bom! Então termina logo essa troca de óleo e vem me pegar. Onde? Aqui na Sede, porra! Tá de sacanagem comigo? E vê se anda logo!”

Voltou-se para dona Maria.

“Sabe do Cris?”

“A esta hora, certamente está na faculdade.” Jesus fazia medicina, queria se especializar em ginecologia para ver se conseguia enxergar algum sentido nessa história de concepção imaculada (por que os pais mentem tanto para os filhos?).

“Eu preciso falar com Ele.” Por que com Jesus? Porque era Seu Filho, alguém que, sem dúvida (sem dúvida?), existia e que Ele pusera no mundo. Junto do Moleque, talvez conseguisse recuperar a fé em Si (ou Se convencer de que ela estava perdida para sempre).

“Liga pro celular Dele.”

A limusine divina parou em frente à entrada principal da faculdade de medicina. Jesus pulou pra dentro.

“E aí, Cristóvão?”

“E aí, Cris?”

Deus no compartimento traseiro, já no terceiro uísque, um havana pela metade entre os dedos. Sobre um assento, um espelhinho todo salpicado, e Nosso Senhor com um bigodinho branco que não era, de modo algum, resultante da ingestão de um copo de leite.

“Porra, Pai, não é nem meio-dia e o Senhor já tá no grau!”

“Enfia o sermãozinho no cu que Eu tô só começando! É isso mesmo! Eu vou enfiar o pé na moranga e não tô com saco pra crítica!”

“E pra que o Senhor Me chamou?”

“Pra Te levar pra bandalheira. Topas?”

Jesus já conhecia as farras do Pai, pra lá de memoráveis.

“Tá, tô dentro. Agora Me conta o que aconteceu. Andou lendo de novo o Jabor? O Olavo? O Mainardi? Alguma coletânea do Corção?”

“Que nada! Descobri que não existo.”

“Mas é claro que o Senhor existe!”

“Mas agora me convenci de que não sou o Criador que fez do homem Sua imagem e semelhança. O que sou é a criatura, imagem e semelhança do meu criador, o homem, que me inventou para ter uma justificativa transcendental da governança autocrática.”

“E por que esse raio de convicção justo agora?”

“Não sei. Hoje, mais cedo, Eu tava buscando putaria na internet e de repente o browser deu pau. Fiquei com raiva, com vontade de fuder com tudo. Daí resolvi parar tudo, todo este planeta, o universo inteiro. Proferi o Verbo e nada, absolutamente nada aconteceu.”

“Vai ver Tu não se concentrou legal.”

“Conversa! Eu sou Deus, porra! Ou ao menos deveria ser.”

“Tá bom! Mesmo assim, e daí? Cê continua sendo, pra todo o zé-povinho, o Todo Poderoso, o Tri-fodão. Aproveita, ora! Só se vive uma vez!”

“Tá certo, cê tá certo. Verdadeiro ou não, eu tô aqui, cheio de grana, cheio de um poder que me foi dado sem que eu pedisse. Vamos cair na patifaria!”

Conseguiram juntar uma galera (Lúcifer e seu filho mais velho, Lúcifer Olegário, Tomé, Mateus, João, Pedro, Joseph Smith, Paulo, Belzebu, Zoroastro, Asmodeu, Sarney, Bento, Dalai, Ellen Gracie, Edir, Mohandas, Hillary, Stalin, Dercy, Evita, Lincoln, Collor, Pinochet, Tatcher, Mao, Adolph, Maomé, Churchill, Nixon, Bush pai e filho e mais uma porrada de gente), fretaram um jato e foram para Las Vegas, onde conseguiram aterrissar no aeroporto, apesar da bebedeira geral e da insistência do Profeta em que se arremessassem, com avião e tudo, contra o prédio mais alto da capital do jogo.

Depois de duas semanas de esbórnia ininterrupta, o que se via era só corpos nus, peças de roupa largadas por tudo quanto é lado, garrafas vazias, seringas usadas, comprimidos, fichas de jogo e mais um monte de coisas estranhas, inclusive um bode a degustar lençóis e um grupo de anõezinhos vestidos de couro tacheado e acorrentados, tudo espalhado por tudo quanto era canto da maior e mais cara suíte de Las Vegas.

Amanhecia, finalmente todos estavam esgotados e dormiam ou permaneciam desmaiados no chão, sobre os móveis, na banheira de hidromassagem, onde fosse. De repente, do meio da balbúrdia, emergiu uma cabeça desgrenhada. Era madre Teresa. Ela se arrastou até onde Nosso Senhor estava apagado com uma piranha em cada braço e cutucou Seu ombro.

“Que que foi?” Perguntou o Criador.

“Porra, Deus, Tu num existe!”

“Foda-se!”

E o Criador aninhou Sua cabeça no farto seio siliconado de uma das piranhas.